quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

TORMENTO DE AMOR

Anda,
vem secar o teu cabelo
no meu peito......
Vem correr o mundo insatisfeito
e descobrir segredos de cristal...

Vem,
que o mundo é tão pequeno
para nós
e havemos de gritar a nossa voz
num hino de verdade e sofrimento !
E nem que seja só por um momento,
seca o teu cabelo no meu peito,
rola as tuas mãos nas minhas mãos...
Meu amor,
minha praga,
meu tormento !...
( Humberto Sotto Mayor)

CABEÇO DE VIDE

Aqui foi o começo
o ponto de partida...
Aqui neste cabeço...
conheci a vida !

Aqui foi a entrega
a lassidão...!
E logo de fugida
forjei o sol
num túnel de aragem,
sentindo a vastidão !
Aqui fundi a flecha
e a coragem...
Aqui meu corpo
perdeu-se na voragem .
E foi o lume,
a noite,
dançando na poeira...
Aqui perdi a alma
na canseira...
Aqui vibrei ao cheiro
da terra ressequida...
Aqui neste cabeço
começou a vida !
( Humberto Sotto Mayor )

AMOR INVENTADO

Era uma tarde de Verão...
Daquelas que nos penetram,
que doem como grilhetas...
em carne de torturados!
Mas o sol quente inundava
nossos corpos desnudadod.

Naquele areal imenso
de linhas que imaginava,
eram nardos ondulados
os dedos que eu agarrava...
Teu corpo esbelto,pedia
carícias que adivinhava...
Prolonguei aquele momento
saboreando a magia
da tua pele de cetim;
E a pouco e pouco senti
subir em mim o tormento
de ceder à tentação...
Toquei-te só na orelha,
depois beijei ao de leve
a tua boca vermelha...
E com um estremecimento,
deslizei a minha mão
p´la tua carne dourada...
-No amor só a verdade
tem a beleza sagrada-
(Senti teus braços abertos
na tarde que eu desfolhava )
Vibrei raízes de dor
criadas na imensidão
da força que me queimava...
Foi este amor que inventei,
naquela tarde de Verão,
de saibro,de mel,de cardo,
do cheiro das camarinhas,
de ar aberto,salgado...
Foi este amor inventado,
que me perturba a semente,
do que foi,do que há de ser,
de o viver e de esquecê-lo...
Foi assim a inventá-lo
que consegui fazer meu,
teu corpo
delgado e belo !!!
( Humberto Sotto Mayor )

INCÓGNITA

Depois o que será?
Depois da treva...
me cobrir o olhar,
o que virá?
Onde estarei, onde estarás?
Teremos mãe?
Teremos pai?
E os nossos filhos
por onde andarão?
Como serei, o que serei?
Terei idade? Ou não terei?
Seremos todos belos
para além da sombra?
Virá a luz? Virá a claridade?
Atingiremos finalmente
o cume da serenidade?
Seremos sol? Seremos lua?
Ou simplesmente um pardal
de rua?

E o nosso amor?
Os beijos que trocámos?
O bem ou o mal
que nos tocou
e tudo o que deixámos?
Seremos dois? Seremos mais?
Sejamos o que for.
uma alga, uma estrela,
uma flor…
uma gaivota.
ou alma ou vento, ou mar,
ou néctar, perfume,
ou cor?
Sejamos nada ou sejamos tudo
Mas num só amor!
(Humberto Sotto Mayor )

O AMANHÃ SOU EU

Não!
O amanhã sou eu !
Sou eu que hei de rasgar...
a tua carne
em pétreas chagas !
Sou eu que hei de crucificar
o teu ventre!
Sou eu que vou roçar as fragas
em que esculpiste
o meu presente...

Não !
O amanhã sou eu!
Sou eu que irei fantasiar
de sol nascente
as tuas mãos !
E esse teu corpo
decadente,
refulgirá de cio !
Não!
O amanhã sou eu !
Um amanhã agreste,
pardacento
e frio !!!
( Humberto Sotto Mayor )

OUTONO

Dança o Outono
como dono
dentro de mim....
Nele me encontrei,
nele me perdi...
Com as folhas caídas,
doiradas,
ressequidas
me construi.

Com o vento agreste
e as primeiras chuvas
me realizei.
Ele me deu das maiores alegrias
que sonhei...
Ele me enerva,
me entristece
e ensurdece.
E nele eu sinto que estou já!
Ai este Outono que me trouxe
e eu sei...me levará !!!
( Humberto Sotto Mayor)

RESISTÊNCIA

Não me insultem
nem me apontem...
Não há dedos...
que possam confrontar
minha vontade,
nem mastros
que possam suportar
minha bandeira.

Não me destruam,
nem me amordacem...
Não há razão
para calar a claridade !
Não há ódio,nem fuga,
nem abismo,nem morfina
que amoleçam
esta fé !
Sou eu,porque sou !
Eu porque nasci em mim
e cresci nas circunstâncias...
Não venham corvos
para devorar a minha esperança!
Creio em tudo o que é belo,
em tudo o que à luz me transporta...
Não quero ironias, nem sarcasmos !
Quero amor e amizade !
E vida !
Renego toda a paisagem morta !!!!
( Humberto Sotto Mayor)

CHUVA

Chove !!!
Chuva tão miudinha
que nem molha o chão !...
Ao menos me trouxesse a calma
me inundasse o coração...
Ao menos me lavasse a alma !!!
Mas não !
Apenas chove !
Quem dera que esta água que hoje cai
me devolvesse o encanto
que se esvai !!!
Quem dera que a vida
fosse
um só momento...
Mas pleno de encantamento !!!

(Humberto Sotto Mayor )

TROVÃO

Essa voz potente
que assusta e faz vibrar...
Esse choque de nuvens...
que deixaram de sonhar...
Essa luz em simultâneo
que anuncia uma certeza...
Essa água que vai beijando o chão...

Encantos medonhos da natureza !!!
Encontros de forças sem razão !!!
Quem viu uma trovoada como eu vi,
não tem medo apenas de um trovão !
( Humberto Sotto Mayor )

OS MELROS

Eu gosto muito de melros !
E nunca lhes faço mal...
...
São negros e luzídios
como dizia o poeta...
Mas conheço um melro branco
que é assim meio pateta
e vive no meu quintal,
que é uma espécie de País
de melros, sem qualidade...
Este melro é bem verdade,
não canta nem assobia;
e se fala,fala mal
que não percebo o que diz
nem a grande maioria...
E este melro é ladrão !
Come as couves e a fruta
come figos e ameixas,
come tudo o que apanhar
não ouvindo as minhas queixas...!!!
É um melro sabidão
que só não me come o pão
que o não tenho para dar...!
Este melro é um ladrão!
Não come carne graúda;
só come arraia miúda.
Minhocas e caracol.
Este melro é um ladrão
que me vai roubando o sol !
Com melro assim tão ladrão
que me anda a chatear,
vou perguntando a mim mesmo:
Como é que o hei de espantar ???!!!
Talvez um tiro certeiro
acabasse com a questão...
Mas então penso primeiro
não ser capaz de o matar...!
E assim vou aguentando...
Ele vai-se enchendo...
e eu a ver...!
Mas se eu gosto de melros,
o que é que posso fazer ?
( Humberto Sotto Mayor )

VEM GAIVOTA VEM

Vem gaivota vem
Vem num astro
vem num sonho...
vem num mastro
vem no frio
vem no tempo
vem no vento
vem no rasto de um navio

Vem no preciso momento
vem numa onda do rio
Faz o ninho numa fraga
vem na vaga
vem na voz
vem numa estrela de mar
vem no luar
que há em nós
Vem na triste melodia
vem num grito magoado
vem num cantar de agonia
e vem na asa dum fado
Se na hora da chegada
ainda ouvires o meu cantar
se eu tiver fogo na mão
e uma chama no olhar
leva a minha voz cansada
E pelo azul do mar
espalha o meu coração
(Humberto Sotto Mayor )

SANTORINI 46

Sonhei,
que atravessava a corrente
da minha vida diferente...
e vazia
que vivo neste momento ...

Há sonhos que são verdade
e roçam a fantasia
ao viajarmos no vento...
Eu acredito nos anjos
se o tempo é certo na idade
e numa estrela liberta...
Olho a paisagem aberta...
Põe-se o sol
vem o luar...!
Tantos anos
tanto mar
e tanto amor
tão profundo...!
Já não podemos deixar
que este barco

ao
fundo !!!
(Humberto Sotto Mayor-14/10/2013 )

A ROMÃ

Abro a romã !
E ávido...
exangue
sorvo-lhe a seiva
da cor do sangue...
E bago a bago
num doce afago
beijo seu corpo
de sensualidade !

Escorrem-me os lábios
cheios de ternura,
de liberdade..
E no seu sexo
corro a loucura
na noite escura
da fecundidade...
Vem outro dia
mais claridade;
vem a beleza
longevidade...
Vem a saúde
sabedoria...!
No seu encanto
assim me dou
na alegria desse cansaço
dessa nobreza...
Cobre-te a fronte
a realeza
e sempre a glória
do teu mandar...
Simbolo da vida
e da riqueza..
Minha romã madura
meu altar !
( Humberto Sotto Mayor )

PASSOS PASSADOS

Passaste por mim passaste
com passo tão apressado
que ainda estavas presente...
e já eras do passado...
Passaste como quem passa
assim descalço num traço
como quem passa na praça
ou passa sem dar um passo...

Quando passaste por mim
eras um pássaro
no espaço !!!
( Humberto Sotto Mayor )

ESCONJURO

Sape gato
carrapato !!!
Troca o pato...
p'lo xanato...
mete no tacho o sapato
e ferve a água com mato !
Manda enxutar o mulato,
põe a mistela no prato
e come tudo no acto !
Engole o sapo e o rato
cose as bainhas ao fato
esconjura o teu retrato
e se já não tiveres tacto
não armes mais desacato
tem-te manso e assim pacato...
Sape gato
sarapato !!!!

( Humberto Sotto Mayor )

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

HORAS PERDIDAS

Já passa das seis
e tu não vens...!
...
Tudo se perdeu
naquele encanto
que afinal
era só meu ...
Os passos incertos
perderam-se na areia
e como castelos
se desfizeram
em sonhos
de lua cheia...
Já passa das seis...!
Só um pardal me diz
que tu não vens
e que a vida continua
para lá da tua imagem...
E é nessa nuvem
de passagem
que sinto o veneno
do teu beijo...
Já passa das seis...
E no meu corpo
só o delírio
do desejo !!!
( Humberto Sotto Mayor )

O ELÉCTRICO 28

Numa viagem à toa
nesta cidade tão bela,
deslumbrando quando passa...
o eléctrico de Lisboa
vai da Graça até à Estrela
e da Estrela até à Graça...

E desce p'ra S. Vicente
que é de fora, mas está dentro
do coração desta gente !
E descendo um pouco mais
chega às Escolas Gerais
e curva às Portas do Sol...
E no casario de Alfama
Lisboa estende o lençol
na cama da nostalgia...
A luz de Santa Luzia
à cidade, dá um beijo
e o olhar estende-se ao Tejo
que se espraia ali ao pé...
Reza uma prece na Sé
e ao Santo Padroeiro
entrega-lhe o coração...
Cumprimenta a Conceição
e sobe a Baixa num salto...
Vai até ao Bairro Alto,
por vezes,cantando o fado...
Vê o poeta Chiado
que nos fez rir quanto quis...
Vê o Pessoa e o Camões
e fala c'os seus botões
passando p'lo Calhariz..
E depois desce a S.Bento
sempre assim desta maneira...
E cospe no Parlamento
que outrora foi um Convento
e hoje é uma lixeira...
Sobe depois a ladeira
que vai dar àquela Praça
e à Basílica tão bela...
E pronto ! Chegou à Estrela !!!
Este eléctrico da Graça
vai da Graça até à Estrela
vai da Estrela até à Graça !!!
( Humberto Sotto Mayor )

REBENTO DE ERVA

A água regou a areia
e o sol na sua teia
encheu de vida a semente ...
...
E veio a lua cheia
e no quarto crescente
o rebento rompeu
o solo,resplandecente !
Cresceu na orvalhada
abriu-se em desfolhada
cheirou a terra arada
e surgiu de repente !
Depois,foi a geada
e a força foi queimada,
mas ficou a semente...
Renasceu no esplendor
de brisas de calor
e sentiu-se beijada
por raios de luar...
Abateu-se no vento
resistiu no momento
de ser espezinhada!
Voltou a reviver,
encheu-se de alegria
e no verde magia
se deixou entreter !
Como o estio foi feroz
calou-se a sua voz
num triste fenecer !...
Mas vibrou a semente
na terra a palpitar...
E num doce gineceu
com a água do céu
voltou a germinar !!!
Em eterno renascer
entre a chegada e a partida,
assim é a nossa vida...
assim és tu e eu !!!
( Humberto Sotto Mayor) 

FLOR DE LÓTUS

Vejo-te na água
nadando de candura!...
É na tua pureza...
que eu encontro o bálsamo
para a minha noite
tão escura !

Inundas-me a alma
em ondas de ternura...!
Flor sagrada
elegante e bela !
Traduz sabedoria
a tua graça singela.
Vives fechada
ao mundo e à traição...
Libertas-me do mal !
Simbolo da Paz Divina
da luz espiritual
e da paixão !!
( Humberto Sotto Mayor )

NA IDADE

Queres saber a minha idade ?
Para quê ?
O que te interessa ?!
...
Tenho a idade que suporta esta cabeça,
a idade do sonho e da esperança
plena de paz,de serenidade...
A idade só se pergunta a uma criança
e os anos que passaram só deixaram
o sabor do saber e da experiência !
Posso falar de razão com consciência,
sem medos,sem entraves,sem prisão...
Extravazar o que me dita o coração
e olhar para trás sem arrependimento
sem um lamento,
ou paixão !
Tenho a idade que busca no perdão
ao esquecer a traição nesse momento !
Se não houve triunfo,pouco importa
esmago a ingratidão e a derrota
sem embargo,sem temor sem um remorso...
Eu tenho a força de remar conforme posso
no combate da angústia e desespero !
Sei o que anseio ! Sei o que quero !
Distingo todo o mal,toda a virtude...
E é no limiar da minha inquietude
que recordo com saudade um sonho antigo...!
Queres saber a minha idade ?
Não te digo !!!
( Humberto Sotto Mayor )